quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Conversando com meus amigos, leitores desta lavrapalavra








Amigos leitores, lavradores desta lavrapalavra, semeadores e a/colhedores:

Há muito tempo sinto-me tocado e incomodado por um tema polêmico e um tanto quanto sensível, pois envolve questões antropológicas, relatividade cultural e etnocentrismo. Abomino os "senhores da verdade" e ditadores de padrões culturais, contudo penso que podemos, pelo menos, sensibilizarmo-nos perante alguns comportamentos culturais e suscitar debates e questões acerca dos mesmos.
Será que não existe um limite para a relativização cultural? Será que um determinado rito de passagem que viole os direitos humanos, a cidadania e a integridade física e moral de uma mulher, não pode ser questionado pelo menos?
Refiro-me à infibulação feminina ou circuncisão do clitóris. Esta é uma prática milenar e comum em muitos países.
Em 1986, lendo uma reportagem sobre este assunto, deparei-me com uma foto de uma criança africana, mais precisamente do Quênia,  flagrada no momento da circuncisão. A expressão do rosto e do olhar da jovem arrebatou-me de tal forma que jamais esqueci "a menina dos olhos da menina"... Subjetivamente, aquela expressão era um texto transcendente, uma mensagem tamanha de indignação e desumana dor!  Sendo poeta, naturalmente, não havia como escapar-me a expressão e a poesia de dor que daqueles olhos minavam.
É claro que, naquele ano, procurei informar-me melhor sobre este assunto e engendrei, obviamente, um poema para sublimar e homenagear aquela criança que jamais saberá o quanto fiquei tocado pela sua expressão.
Não pude ficar inerte, precisava fazer algo e fiz: divulguei tal assunto, debati, conversei, informei-me e protestei, ainda que em forma de arte.
Recentemente assisti ao filme "Flor do Deserto" e, novamente, achei que deveria retomar aquele poema que fiz naquela década, pois toda a memória da expressão de dor daquela menina do Quênia me assolou outra vez. Indico o referido filme e posto o meu poema, abaixo. Espero que vocês sintam-se provocados e estimulados a filosofar sobre o que é,ou não, relativo nas nossas culturas. Qual é o limite de uma tradição? O quanto uma imagem de sofrimento de uma criança, advinda de uma prática cultural, pode tocar nossas vidas?
Jamais esquecerei a minha menina... Será que ainda vive? Será que ainda está no Quênia? Será que se tornou uma linda mulher? Será que se conformou à violência daquela cultura? Por onde andará a minha menina do Quênia?


Torres Matrice

31/08/2011

Um comentário:

Ana Angélica Bruni disse...

Como pode uma cultura dilacerar o eu tão profundo de uma pessoa? Forçar a cultura prevalecer nos outros é a convicção errada de manter os costumes.Por ideais como esse geram a intolerância. E essa ação citada no seu discurso meu amigo Torres é repugnante aos olhos de todos nós, principalmente de mulheres como eu que idealizam um mundo de libertação da mulher, liberdade no pensar, no agir, é intolerável o mundo não agir diante deste ato.

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